A economia da goiabada

Éramos sete filhos, após o almoço, às vezes, havia goiabada, daquelas redondas que vinham em latas. A mãe então, com a ajuda de uma linha, dividia o doce em duas metades, depois, uma das metades cortava em três pedaços iguais, a outra, em quatro. Cada terça parte da primeira metade era dada aos três filhos homens e cada quarto da outra, para as filhas mulheres. O pai e a mãe não comiam do doce.

Nunca me esqueci desta divisão e até hoje lembro-me da linha, manejada com destreza, e das fatias sendo devoradas com satisfação. Também não percebia nenhuma injustiça e admirava os cálculos precisos da velha. Eu era um dos filhos homens, os tempos eram outros e ninguém atrevia-se a questionar os pais.

Basta uma olhadela na história da cultura ocidental e surgem as bases para o pensamento econômico moderno. O problema da economia sempre foi questão de sobrevivência e o animal humano o enfrentava como parte de um grupo, jamais individualmente. Isto também atestou Aristóteles, quando a economia fazia parte da grande filosofia, ao dizer que “é melhor que a propriedade seja privada…”, e concluía, “mas seu uso comum…”. Aristóteles acreditava que a natureza humana era má, contudo poderia ser domada com disciplina e persistência, criando certa disposição benevolente.

Demos um salto no tempo e já temos os doutores da Igreja Católica, institucionalizada e disseminada a partir de Roma, a dissertar sobre o dinheiro e suas relações com a justiça divina. Era uma época em que a verdade absoluta do conhecimento ruía, submetida ao crivo das primeiras universidades e diplomações. Séculos depois, os monstros lendários que habitavam os misteriosos oceanos seriam engolidos pelo Leviatã, de Thomas Hobbes, e os abismos onde terra e mar acabariam seriam desmitificados pela tecnologia da navegação. Tal como previra Aristóteles, o dinheiro passava, de mero meio de troca — afinal, ninguém come dinheiro — para objeto de obsessão e desejo, sendo ele um instrumento de lastro a “achatar” todas as coisas que podem ser trocadas com ele.

Com o expansionismo e o mercantilismo, um velho modelo de domínio ganhou relevo: o escravismo, força de trabalho barata e indispensável para o enriquecimento de nações, principalmente no velho mundo. Mais um salto no tempo e poderemos observar e uma constelação de pensadores a contribuir, cada qual com suas inclinações filosóficas, para o amálgama sofisticado das ciências econômicas modernas. De Adam Smith a Karl Marx, de John Lock a John M. Keynes, e a economia segue, após instrumentalizar-se com a matemática, até nossos dias, indissociável das ciências da informação. Algoritmos independentes e complexos, Big Data e dataísmo, talvez criem um novo conceito de economia e elevem a organização social do homem a um novo estágio evolutivo: a divisão da goiabada.

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